Do prefácio às entrelinhas
A maioria de nós, passageiros desavisados, não desperdiçará mais de 2 minutos com isso e seguirá em frente, como manda a cartilha.
Se o sentido da vida não é dado, é descoberto. Então, com a devida licença da minha esposa, resolvi compartilhar com vocês a jornada da minha descoberta.
Aos 23 anos, desembarquei em Auschwitz. Era fim de inverno e o vento polonês, sempre duro, queimava as poucas partes do meu rosto que o cachecol não cobria.
Chegando lá, tudo era cinza — o céu, o chão, o semblante desinteresado dos funcionários nos guichês. Até os galhos secos das árvores tentavam sair do solo, parecendo mãos retorcidas fugindo de algo.
Logo na entrada, eu vi as grades de ferro curvadas pelo peso da promessa “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta), hesitei e entendi: os portões de Auschwitz não se abrem, eles devoram.
Não era uma entrada comum. Era um portal ao abismo da própria humanidade.
Resolvi parar e tirar uma foto, mas não tive coragem de sorrir. Talvez, esse tenha sido o gesto mais honesto que consegui oferecer.
Naquele momento, pensei “aqui não é lugar de sorrisos”. Anos depois, ao ler Viktor Frankl pela primeira vez, entendi o quão absurdo era meu pensamento. Negligenciei até onde o homem está disposto a ir para não soltar os fios que sustentam os pilares da terra.
Em algum momento, todos nó nos deparamos com a questão existencialista universal: qual o sentido da vida?
A maioria de nós, passageiros desavisados, não desperdiçará mais de 2 minutos com isso e seguirá em frente, como manda a cartilha. Outros, reféns da soberba, ludibriados pelo charme romântico dos pessimistas, contentar-se-ão com uma meia-resposta: aquela que momentanemante conforta, mas não alivia. Os mais corajosos, por sua vez, atravessarão o abismo com brio, para que, ao chegar ao outro lado, possam entender que tinha uma pedra no meio do caminho - e todos os caminhos invariavelmente são feitos de pedra.
Estes, os corajosos, encontram em Viktor Frankl um atalho.
Na minha primeira leitura, isso ficou claro. Entendi as 3 formas de encontrar esse tal sentido: pela criação do trabalho, por amor ou pela nossa atitude diante do sofrimento.
À época, isso me convenceu.
Isso me lembrou algo que li do Naval Ravikant. (Para quem se interessa por uma filosofia prática da felicidade, recomendo este vídeo:
) Ele relata a história de um jovem que, após vender sua startup, foi tomado por um vazio existencial e não sabia qual direção seguir.
A resposta de Naval foi direta: God, kids, or a mission. Pick at least one.
Dez anos depois, como vocês bem sabem, tive a sorte de me casar com o amor da minha vida. O que vocês talvez não saibam é como isso mudou tudo (ao menos, tudo que importa).
Dizem que um bom poema, assim como um bom livro, é aquele que nos lê. Por isso, de tempos em tempos, delego a um bom livro a árdua tarefa de olhar no fundo da minha alma. Reler Viktor Frankl com o Plano B foi assim: fui relido do prefácio às entrelinhas.
Dessa vez, o que mais me chamou a atenção na leitura foi a ideia de que o sentido da vida tem de estar em algo para além de mim mesmo.
Quando eu me casei, todos os meus problemas se apequenaram. De repente, as miudezas que costumavam me incomodar tornaram-se irrelevantes perante o meu dever moral de cuidar, prover e proteger a minha família.
O sentido da vida ficou óbvio quando percebi que todos os meus problemas não são mais meus.
Que me perdoem os modernos, mas esse é o meu dever como homem. Eu jamais esperaria o mesmo da minha mulher - ao menos, não dessa forma. Esse é o meu sentido. Ela não precisa proteger, prover e nem se preocupar se a revisão do carro está em dia.
Entender isso foi como alinhar um compasso interno. A vida deixou de ser uma busca abstrata por significado e passou a ser uma resposta concreta ao chamado que me atravessa todos os dias quando olho para minha esposa.
Descobri que o sentido não é uma revelação repentina, mas uma responsabilidade assumida com fervor. Não há mistério oculto esperando ser decifrado. Há apenas o compromisso diário com aquilo que amo. E, no meu caso, amar também significa carregar. Carregar com alegria, com dever e com propósito.
Se o sentido da vida não é dado, mas descoberto, o meu eu encontrei no exato momento em que deixei de ser o protagonista da minha própria história. A partir dali, a vida parou de me perguntar o que eu queria dela e começou a me mostrar, com uma clareza quase brutal, aquilo que ela precisava de mim.
Mesmo depois de Auschwitz, mesmo depois de Frankl, mesmo depois de Naval, a resposta que encontrei foi simples e profunda: viver por algo além de mim mesmo.
Que eu não seja prisioneiro das minhas próprias vontades, mas um coadjuvante que evita a todo custo a insustentável leveza do ser.
Gabriel Ricartes.




Belo texto, Gabriel.
Estou encantada de como seu marido escreve bem! Que texto maravilhoso! Eu li pela segunda vez também com a Bá e gostaria de visitar a Alemanha e esses lugares…é um sonho! Quem sabe na outra vida! Parabens!